Três meses depois do UFC on Fox 15 – estrelado por Lyoto Machida e Luke Rockhold-, o Ultimate retorna à TV aberta americana com casamentos na medida para captar a atenção do grande público.
O prato principal, inclusive, é bem servido com os dois melhores galos ativos do mundo.
A dias do segundo encontro entre Renan Barão e TJ Dillashaw, algumas questões ainda pairam no ar.
Conseguirá o campeão embalar novamente o desafiante com sua movimentação frenética?
E o brasileiro, pode equilibrar as ações em pé no volume ou até desequilibrar com seu poder de fogo?
A luta agarrada pode ser um fator nessa revanche?
Vamos, então, tentar entender, setor a setor, como esses craques se encaixam:
Trocação (por Fernando Cappelli):
TJ Dillashaw maturou o striking pra valer no período em que a Team Alpha Male ficou sob tutela de Duane Ludwig, um treinador com base na escola holandesa de kickboxing/thai e que aposta na grande variedade de drills como a forma mais direta de construir personalidade técnica e lapidar habilidades.
O ‘chato’ de enfrentar um lutador como Dillashaw é ter de lidar com as constantes quebras de ritmo do estilo peculiar de movimentação. Lutadores se acostumam com padrões mais fixos para golpear ou serem golpeados, e a capacidade de modificar parâmetros de timing sempre são complexas de lidar.
Dillashaw raramente fica estático. As mudanças de níveis são intensas. Ele entra no raio de ação sempre flexionando as pernas, fazendo pequenos steps (passos), movendo o tronco ou esboçando alguma jogada de ombro.
Assim, entradas ‘secas’ praticamente não existem. A fórmula abaixa a posição/golpeia alto, e vice-versa, torna seu padrão de luta traiçoeiro ao extremo.
Antes de cada ataque, costuma explorar o território com trocas constantes de base. A ambidestria traz características distintas.
1 – Como canhoto: adota mais a postura de contragolpeador e baseia o jogo no volume, combinando pelo menos 4 a 5 golpes em cada resposta aos ataques contrários, pontuando sucessivamente.
2 – Destro: torna-se o atacante mais incisivo. Geralmente executa um jab/direto simples para abrir caminho, esperando a contrapartida para saber se segue na ofensiva ou escapa. Para confundir ainda mais, muitas vezes angula de encontro ao lado mais forte do adversário e joga algum soco ou chute indo diretamente por dentro da guarda. Confiança pura.
Outro recurso do campeão é o chute emendado, outra técnica que depende de ótimo senso de dinâmica. Coloca-se um soco reto (jab ou direto) – geralmente acrescido por uma inclinação de tronco – seguido de um chute circular alto.
Sempre é feito do mesmo lado: mão esquerda/pé esquerdo ou mão direita/pé direito.
O punho é jogado contra o rosto ou tronco para funcionar como uma ponte, que confunde ou ‘cega’ o adversário por um instante até que o chute seja conectado de surpresa e quase ao mesmo tempo.
Por outro lado, regular é o termo que melhor caracteriza o jogo do brasileiro. Bons jabs, bons overhands, bons low kicks, bons chutes giratórios, etc e tal.
A movimentação do potiguar é bastante linear, sobretudo nos momentos de pressão adversária. Ele não se importa em recuar dois ou mais passos para se desvencilhar dos ataques contrários, mesmo que isso possa deixá-lo à mercê contra wrestlers que alternam tentativas de quedas com socos ou strikers que esperam recuos para soltar golpes potentes.
O bom feeling para golpear em pleno recuo chama atenção como contrapartida. Trata-se um recurso técnico complexo e pouco usado por strikers experientes pela dificuldade em estabilizar a posição ou farejar o momento certo de aplicar o ataque em situações adversas.
Os momentos que exigem volume maior nas trocas de ataques requerem maior atenção de Barão. Uma das principais falhas do campeão é movimentar/pendular pouco o tronco durante as trocas mais extensas. A cabeça imóvel e a postura ereta demais o tornam alvo mais fácil.
Típico da Nova União, Barão costuma se proteger com um ‘escudo’, no qual estica o braço esquerdo (para atrapalhar o avanço do adversário) e protege a lateral direita da cabeça com a mão direita (bloqueio de qualquer ataque mais forte), saindo do raio de ação lateralmente.
Esse tipo de técnica é uma adaptação das usadas no muay thai clássico para garantir proteção extra e, no caso do MMA, brecar tentativas de queda.
Grande para a categoria, o brasileiro executa jabs como medidor de distâncias, abrindo caminho para combos curtos e simples de socos ou chutes, características que permeiam o estilo no geral. Com os punhos, os overhands de direita são os golpes de potência mais intensos.
Por contar com defesas de queda confiáveis, Barão é um chutador fluido. Distribui low kicks, chutes altos, giratórios e joelhadas voadoras de acordo com cada ocasião ou distância.
Mesmo com sequências de mãos e pés bem treinadas, o potiguar prefere mandar pernadas isoladas e muitas vezes sem qualquer set up, como recurso para enganar ou ‘cegar’ momentaneamente o adversário e abrir espaços na guarda.
Outra marca registrada é a de soltar um chute giratório 180º no plexo ou rosto dos oponentes, geralmente quando está acuado e para ampliar a violência do impacto da manobra.
Conclusão:
Engolido tecnicamente no primeiro encontro, Barão terá de mostrar evolução neste novo encontro contra Dillashaw, principalmente em antever a movimentação – grande trunfo do norte-americano – para acertá-lo desprevenido.
Confiar apenas na tal ‘paraibagem’ não vai dar certo contra o cara mais dinâmico da divisão.
Grappling (por Renato Rebelo):
Tyler Jeffrey deixou o ensino médio com o impressionantes 170 vitórias e apenas 33 derrotas no wrestling. No período colegial, chegou a fazer intercâmbio na Ucrânia para afiar o estilo livre – sendo que (questionavelmente) seu maior feito foi terminar em sexto no Campeonato Universitário de Grego.
Ele disputou três vezes a primeira divisão da NCAA, mas jamais terminou entre os seis primeiros – feito que lhe garantiria o status all-american.

No MMA, quando falamos de chão, sua prioridade sempre foi manter posição/golpear por cima. Geralmente, ele avança quando há sinal de exaustão, deficiência técnica do adversário ou uma oportunidade clara.
Sua última finalização, por exemplo, foi em julho de 2012, quando esganou Vaughan Lee com um mata-leão. Claro, o nível dos adversários aumentou muito de lá pra cá e a margem de erro passou a ser menor…
Seu treinador de jiu-jítsu, Fabio Pateta – ex-aluno de Carlson Gracie-, garante que, na academia, ele é um terror: “Ele troca chão com qualquer um. Sempre levo faixas-pretas lá, e ele, mesmo sendo azul, enfileira todos. O moleque está f… Está voando”, disse ao Combate.com.
Já Barão, cria Jair Lourenço e centésimo faixa-preta de Dedé Pederneiras, entrou no jiu-jítsu a convite de um amigo com 14 anos e, nessa época, gostava de fazer guarda para encaixar o triângulo (seu golpe favorito).

Ah, Barão também tem um dos melhores sistema de defesa de quedas de todo o UFC – nega 97% das entradas propostas a ele! Superando até seu companheiro de equipe José Aldo (91%), Jon Jones (95%) e Tyron Woodley (95%).
Dillashaw, em nove lutas com a Zuffa, nunca foi quedado.
Conclusão:
No papel, o dono do meio-campo é o campeão. Acontece que essa vantagem não significa muito quando o rival em questão é brilhante defensivamente.
Considerando que a eficiência de Barão cai bastante quando ele precisa buscar o solo (em nove lutas, tentou aplicar 24 quedas e só foi bem-sucedido em 13 – 0 que dá 54% de acerto), a chance de um desses dois quedar o outro sistematicamente é ínfima – pra não dizer nula.
Uma enorme quantidade de energia – que faria muita falta em cinco rounds- teria que ser dispensada sem nenhuma garantia de retorno (Barão e TJ jamais foram finalizados).
Números e retrospectos me levam a crer que, em condições normais de temperatura e pressão (leia-se, sem um knockdown, escorregão, exaustão extrema, etc), essa luta vai desenrolar em pé.
Caso tenham pontos de vistas diferentes, por favor, compartilhem conosco, amigos!
Abraços.
FONTE: http://sextoround.com.br/22740-dos-pes- ... dillashaw/" onclick="window.open(this.href);return false;



