Por 40 dias vivi e trabalhei na Austrália. Voltei de lá com a seguinte questão: por que Austrália e Brasil, dois países que começaram de forma tão parecida e que têm tanto em comum, acabaram seguindo caminhos tão opostos?
A Austrália é um Brasil que deu certo. Um país que o Brasil poderia ser e não é. Onde foi que eles acertaram? Onde foi que nós erramos? Essas questões se aguçaram quando, três dias após o meu retorno a São Paulo, fui assaltado num cruzamento. (Pela quinta vez.) O bandido, um sujeito bem trajado, bem alimentado, agindo talvez por pura diversão, engatilhou a arma e a encostou na minha testa. E, rindo, disse que iria me matar, apesar de eu não haver reagido e de lhe haver entregado todo o dinheiro que carregava. Achei que a minha hora tinha chegado. Diante da minha falta de reação, ele murmurou alguma coisa como "Assim não tem graça..." e desistiu de me matar. Enfiou a arma na cintura e saiu caminhando.
A meu ver, dois fatores determinam a dianteira que a Austrália abriu em relação ao Brasil ao longo da história. O primeiro é a tolerância zero. Na Austrália, se você age de acordo com as regras, ninguém quer saber de onde você veio, qual a sua cor, ou que roupa você veste. Interessa apenas os resultados que você é capaz de gerar. Porém, se você pisar na bola, não terá uma segunda chance. Impunidade é uma palavra que não faz parte do vocabulário australiano. Lá não existe o "jeitinho". Todo e qualquer delito, independentemente da sua gravidade, é punido de imediato.
Um exemplo: em Melbourne, a polícia mantém o chamado booze bus (algo como "ônibus da bebida"). É o seguinte: de vez em quando a polícia monta uma blitz e sujeita os motoristas ao bafômetro. Se o nível de álcool estiver acima do permitido, o indivíduo estaciona o seu carro e entra num ônibus que, quando estiver lotado, leva os infratores para casa. (Cada um que se vire para voltar no dia seguinte e pegar o seu carro.) Além disso, o sujeito paga uma multa salgadíssima. Ninguém escapa. Pode ser um figurão: vai entrar no ônibus e pagar a multa como qualquer outro. Se for uma autoridade pública, o sujeito será massacrado pela mídia e possivelmente demitido.
O segundo fator da dianteira australiana é o valor dado à cidadania. O australiano em geral tem uma consciência muito clara de seus direitos e deveres. E sabe que as autoridades e os funcionários públicos existem para servir ao cidadão - e não o contrário. Em Sydney, num dos bairros mais nobres, um ladrão pulou a janela de uma casa e roubou uma bolsa. Numa outra casa, na mesma noite, alguém roubou um carro. Os moradores da região convocaram uma assembléia para discutir o que fazer. A maioria se opôs à contratação de seguranças particulares e acabaram convocando as autoridades policiais para lhes passar um sabão e deixar claro que, se não cumprissem seu papel de garantir a segurança de quem paga impostos e segue as leis, não permaneceriam por muito tempo em seus cargos.
O que está por trás dessas duas diferenças básicas é que, ao contrário do que acontece no Brasil, os australianos ainda não perderam a capacidade de se escandalizar. A queda na qualidade do ensino numa escola pública é motivo de escândalo. Alguém ameaçar outra pessoa com uma faca para lhe tomar dinheiro é motivo de escândalo. Um político que troca de partido é motivo de escândalo. Por que diabos no Brasil não é mais assim? Como transformar o Brasil num país melhor? A solução depende de nós. É dever da sociedade civil cobrar das autoridades constituídas que elas cumpram os seus deveres.
Especialmente no Brasil, não dá para esperar que os políticos comecem a cumprir, de livre e espontânea vontade, e de uma hora para outra, o seu dever. Eles precisam ser duramente cobrados por cada um de nós. Eis a questão de fundo: queremos viver em um país melhor? Se sim, precisamos de mais articulação na sociedade civil para cobrar das autoridades ações coerentes com essa vontade.
Precisamos não esquecer que os políticos, do presidente ao vereador, trabalham para nós - e não nós para eles. Do contrário, os brasileiros que tiverem algum talento e alguns contatos vão se sentir tentados, mais cedo ou mais tarde, e cada vez mais, a emigrar para países em que os cidadãos que pagam seus impostos e cumprem as leis podem andar na rua com tranqüilidade, sem medo de ver seus sonhos liquidados por um tiro disparado por um meliante qualquer, num cruzamento qualquer, às vezes por pura diversão. *
Marcelo Cherto é presidente da divisão latino-americana da I-F Consulting, da Cherto Networking e do Instituto Franchising










