Paraná Vale-Tudo - equipe que muitas vezes foi motivo de piada e de desconfiança pelos maus resultados -, supera críticas e leva integrante à luta pelo título dos palhas

O ano não importa: é véspera de um importante evento do cenário nacional do MMA. Um imprevisto acontece e obriga um lutador a abandonar o card, cujos ingressos estão vendidos e a televisão está programada para determinado número de combates. Desesperado, o promotor precisa repor uma das peças, ciente do quanto é difícil encontrar um substituto disposto a encarar um adversário que se preparou durante dois meses e está pronto para entrar no cage. A solução para o problema está no bairro Santa Rosa, em Niterói: é lá que está instalada a academia Paraná Vale-Tudo (PRVT), fundada em maio de 2005. A equipe, que hoje está no auge através de Jéssica Bate-Estaca, próxima desafiante ao cinturão peso-palha do Ultimate, contra Joanna Jedrzejczyk, dia 13, no UFC 211, era uma espécie de tapa-buraco das organizações nacionais e, muitas vezes, tinha sua qualidade questionada pela quantidade excessiva de derrotas de seus integrantes.
A desconfiança em relação à academia, às vezes, ganhava contornos de chacota. O trabalho duro era reconhecido até mesmo pelas equipes rivais, porém, uma desconfiança pelos maus resultados pairava sobre o time. Sincero, Gilliard Paraná, líder da PRVT, reconhece, em entrevista ao Combate.com, que a necessidade - financeira, principalmente - o forçava a colocar seus pupilos em duelos nada favoráveis.
- Eu não me arrependo nem um pouco de ter botado meus atletas em furada. Trato todos como filhos. Tenho 20 filhos, como ia pagar as contas de todo mundo? Não tem como. Hoje, com a situação financeira que a gente adquiriu como equipe... A Jéssica está no UFC e me ajuda muito com a galera, porque são seus irmãos de equipe. Hoje eu tenho condições de dar uma cesta básica para quatro ali, aluguei uma casa para a galera ficar, tenho condição de dar o que comer e ajudar os caras. Na época, irmão, se "nêgo" não lutasse, ia trabalhar de pedreiro, de segurança, levar um tiro... (Tinha que aceitar lutar) para sobreviver, né? Tinha vezes que entravam na fria para não parar de treinar, para não parar de lutar. Atualmente, com uma estruturazinha, a gente não entra mais em luta nenhuma para perder. Os últimos eventos ao vivo que lutamos, vencemos todos, especialmente com o time feminino. Tenho meninas aqui com 8-2, 8-0, 6-0, 14-3... A gente não entra mais em furada.

A fama de não deixar a oportunidade passar fazia com que a PRVT fosse a primeira opção de eventos nacionais quando havia uma baixa de última hora. Organizador do WOCS, Tatá Duarte estima que a academia de Giliard Paraná tenha "tapado-buraco" em 20 edições do show.
- Para ganhar espaço no Rio, a PRVT entrou em muita "roubada". Se eu precisasse de um lutador para amanhã, o Paraná tinha. A equipe pegava qualquer tipo de luta, em qualquer situação. Eu dou valor para a valentia dos caras. Ele salvou meu evento botando atleta em cima da hora inúmeras vezes. Foram várias e várias vezes. Hoje em dia ele diminuiu um pouco, viu que não era o caminho certo a ser seguido, investiu no mercado feminino. O trabalho dele vai colher frutos na frente. Ele achou um nicho e há várias meninas duras na academia dele.
O fato de colocar lutadores em "frias", como Paraná define, o fazia ser alvo de piadas na internet. O comandante, porém, acredita que as críticas o fortaleciam para que chegasse a um caminho mais vitorioso.
- Via muita (piadinha) né? Eu via principalmente nos fóruns. Via muita besteira, que a gente servia de escada para os outros, que a equipe não tinha uma boa escola, que era isso, que era aquilo... Na minha cara, ninguém dizia nada, porque eu sempre fui um cara bom de treino. Eu sempre ouvi muita piadinha escrita, mas na minha cara, nunca ninguém falou, porque todo mundo que pisou na minha frente para treinar sabia que eu tinha "café no bule" para vender aqui na minha área. Eu via que os caras tinham razão em muita coisa, porque quem não está aqui dentro não sabe o que acontece. Os caras viam o resultado, e se você só vir o resultado, você pensa: "Essa equipe é uma equipe de nada." Mas eu sempre soube do nosso potencial. Eu não tinha condições de montar uma puta academia, eu não tive apadrinhamento. Fui pedreiro, como o meu pai que é até hoje, minha mãe era doméstica... Não entrei numa equipe grande, do Minotauro, ou de um cara que lutava no Pride.

Embora a carreira de Jéssica Bate-Estaca tenha iniciado em 2011, ela começou a trabalhar com Gilliard Paraná somente após oito lutas, em 2012. O curioso, contudo, é que quando estreou no esporte, a lutadora enfrentou a favorita Weidy Borges, à época aluna de Paraná. Em suma: Bate-Estaca serviria apenas para que a oponente anotasse mais uma vitória no cartel - o que não contavam era que a debutante vencesse por nocaute técnico, no segundo round, pelo Sagaz Combat.
- Foi assim que eu descobri a Jéssica. Aí a gente entra no mérito: eu peguei a Jéssica para servir de escada da minha aluna! Olha só, você vai fazer festa na sua casa para os outros se divertirem e você chorar? Até hoje, me ligam (e perguntam), "Paraná, você tem um atleta?" Tenho! "Como é?" É 8-0. "Ah, mas não tem um mais fraquinho? Não tem um com menos cartel?" Às vezes os caras se escondem e não querem falar do assunto. Eu falo abertamente. Eu fazia, faço, e vou continuar fazendo! Agora, um que serve de escada pode descer como lanche estragado aqui no meu evento. Como a Jéssica: era uma faixa-branca que não sabia p*** nenhuma, pegou minha menina de ouro da época. Luta é luta, tendo dois braços e duas mãos... E se eu passei por escada pra todo mundo, com meus atletas na época ruim, não vejo problema nenhum em hoje a gente com estrutura fazer eventos que favoreçam nossos atletas. Favorecimento não quer dizer que a luta é comprada, nem que a gente tenha certeza absoluta da vitória; quer dizer que a gente viu um cartel mais ou menos parecido ou menor, e pensamos, "Vamos botar esta luta aqui".
A identificação de Bate-Estaca com a PRVT é explícita - a lutadora tem o símbolo e o nome da equipe tatuados em seus antebraços. Ela defende a academia, o mestre - a quem trata como um pai -, e seu caminho no UFC, onde soma dez combates, serve como resposta.

- Nunca escutei piadinhas, mas o mestre provavelmente escutou muitas críticas, gente falando que ele "botou a Jéssica no UFC, mas não sabe fazer nada". Eu não sabia fazer nada, mas ganhava de quem fazia um monte de coisa, então o trabalho não era ruim. O mestre melhora o que já é bom em nós. Hoje sei dar uma joelhada voadora, chutes, um frontal, uma esquiva, graças a ele, mas na época eu não sabia. Se não tivesse ele para me dar essa estrutura, não teria evoluído tanto. Hoje sou a prova viva de que o trabalho é muito bem feito, não tenho do que reclamar. Sou uma pessoa muito bem sucedida na minha vida profissional e pessoal e nada disso teria acontecido se não tivesse entrado na PRVT e ouvido os conselhos do mestre, me apoiando e me levantando nas vezes que caí. Sou a prova viva de que tudo o que falam é mentira.
No próximo sábado, Bate-Estaca fará milhões de pessoas escutarem o nome da Paraná Vale-Tudo no principal evento de artes marciais mistas. A chegada à disputa do cinturão é reflexo do talento da paranaense, aliado ao trabalho da equipe. A conquista, no entanto, será a melhor resposta para os críticos.
O Combate transmite o UFC 211 ao vivo e com exclusividade no próximo sábado, a partir de 18h45 (horário de Brasília). O Combate.com acompanha o torneio em Tempo Real e exibe as duas primeiras lutas do card preliminar em vídeo ao vivo. Na sexta-feira, site e canal transmitem a pesagem cerimonial ao vivo a partir de 19h50. Confira o card completo:
UFC 211
13 de maio, em Dallas (EUA)
CARD PRINCIPAL (a partir de 23h, horário de Brasília):
Peso-pesado: Stipe Miocic x Junior Cigano
Peso-palha: Joanna Jedrzejczyk x Jéssica Bate-Estaca
Peso-meio-médio: Demian Maia x Jorge Masvidal
Peso-pena: Frankie Edgar x Yair Rodríguez
Peso-médio: Krzysztof Jotko x David Branch
CARD PRELIMINAR (a partir de 19h, horário de Brasília):
Peso-leve: Eddie Alvarez x Dustin Poirier
Peso-leve: Chas Skelly x Jason Knight
Peso-leve: Marco Polo Reyes x James Vick
Peso-palha: Jessica Aguilar x Courtney Casey
Peso-pena: Jared Gordon x Michel Quiñones
Peso-pesado: Chase Sherman x Rashad Coulter
Peso-pena: Gabriel Benítez x Enrique Barzola
Peso-meio-pesado: Joachim Christensen x Gadzhimurad Antigulov
Fonte: http://sportv.globo.com/site/combate/no ... staca.html




