Dr. Souto MITANDO sobre cetoadaptação, LEIAM:
Não precisa nunca passar por cetoadaptação. A grande maioria das pessoas que faz low carb, emagrece sem jamais ter ficado em cetose nutricional por um período significativo de tempo (ou seja, ficar sistematicamente entre 0,5 e 3 mmol de beta-OH-butirato sérico). Veja, ficar em cetose de forma consistente requer disciplina, e é mais difícil para umas pessoas do que para outras (atletas magros, por exemplo, têm mais facilidade, mesmo com mais de 40g de carbs). De uma forma geral, precisa restringir não apenas carboidratos (abaixo de 30 ou 20g para algumas pessoas), mas também PROTEÍNAS, muitas vezes a não mais do que 0,8 a 1g por Kg de peso (caso contrário a gliconeogênese já produzirá glicose suficiente para lhe tirar da cetose). Trata-se de uma dieta difícil, limitadíssima, de altíssima gordura (estamos aqui falando de 85% de gordura, quando não mais). Na verdade, cetoadaptação é um termo técnico criado por Phinney e Volek para descrever o momento em que atletas treinados (ciclistas), após adotarem uma dieta cetogênica e terem uma queda drástica em sua performance, voltam - após 4 a 6 semanas - a ter performance idêntica ou superior à de quando consumiam carbs como base de sua dieta. Tais atletas, em condições de laboratório, confirmaram estar queimando essencialmente gordura (na forma de corpos cetônicos e de ácidos graxos livres), e praticamente nada de carboidratos. A isso se chama de estar cetoadaptado. É possível perder peso comendo exclusivamente batatas, se você restringir suas calorias (se isso é algo agradável, deixo a critério de cada um - sustentável, obviamente, não é), de modo que não apenas não é preciso estar em cetose para perder peso, como nem sequer é preciso fazer low carb para perder peso (como atestam as incontáveis hordas de pessoas famintas que perdem peso comendo biscoitinho de arroz e granola em dietas hipocalóricas). Low carb é UMA das formas de TENTAR perder peso (com menos fome, o que é uma GRANDE vantagem), e dieta cetogênica é apenas uma versão extrema (e não necessariamente melhor).
Muitos têm criticado o termo cetoadaptação por dois motivos. O primeiro é o acima, o fato de que pessoas que não estão em cetose nutricional abusam desse termo, pois acham que o fato de sentir-se bem ou de ter menos fome já indicam "estar em cetose" (estar em cetose é definido por um APARELHO, não por sensações). O outro, mais importante, é o fato de que o principal combustível dos músculos em low carb são ácidos gaxos livres (FFA), e NÃO corpos cetônicos, que são reservados para o cérebro, coração e diafragma, além de alguns outros tecidos (hemácias, medula renal, etc). De modo que o termo mais correto não seria "KETOadaptation" e sim "FAT adaptation" (ketoadapted versus fat-adapted). Ketoadaptation vira cetoadaptação sem problemas em português, mas fat adaptation ficaria como? Gordo-adaptação? Gordura-adaptação? Então, eu criei lipoadaptação apenas para não ficar cacofônico. "Are you fat-adapted?" ficaria "você está lipoadaptado?".
Estar lipo-adaptado significa simplesmente que a maioria das demandas energéticas do corpo estão sendo supridas por gordura, e não por carbs. Não é uma definição científica rígida como cetoadaptação, simplesmente significa que você já fez a transição de high carb para low carb e já superou a "gripe low carb" (leia
http://www.paleodiario.com/201..." onclick="window.open(this.href);return false;, já não está fraco e com dor de cabeça, já sente-se bem e com menos fome, aquilo que todos nós que estamos lipoadaptados sabemos bem.
Estar em cetose nutricional é, na minha visão, uma condição terapêutica (para tratamento de epilepsia, doenças neurodegenerativas, determinados tipos de câncer em conjunto com o tratamento convencional) ou então um bio-hack para atletas de alta performance praticantes de atividades de endurance (maratona e ultra-maratona, ciclismo de longa distância) que, juntamente com seu treinador, desejam experimentar esta modalidade para tentar melhorar seus tempos com um combustível alternativos. Não sou médico do esporte nem atleta e, neste quesito, estou apenas repetindo o que leio e me baseando em relatos de pacientes que fazem isso com sucesso.
Algumas pessoas (repito - especialmente as que não são diabéticas, e que são bastante ativas) conseguem manter-se em cetose mesmo com proteínas à vontade e com mais carbs. Se sentem-se bem, ok. Mas NINGUÉM precisa estar em cetose ou mesmo BUSCAR a cetose para perder peso e obter os benefícios de um estilo de vida low carb. Uma pessoa pode muito bem perder peso e melhorar sua síndrome metabólica comendo bichos e plantas, low carb, mas ainda incluindo algumas frutas e raízes, sem nunca chegar nem perto de estar cetoadaptado. Para estar em cetose nutricional, literalmente cetoadaptado, não daria nem para sentir muito o cheiro da quantidade de cenoura e tomate que eu comi ontem à noite.
Então, salvo nos casos em que há motivos terapêuticos ou se a pessoa QUER experimentar a cetoadaptação por ser um nerd, ficar catando os pedacinhos de cenoura no meio da carne moída é ortorexia, e é desnecessário, pois a pessoa não precisa estar cetoadaptada para estar lipoadaptada.