Em especial, conheça a trajetória da carreira do atleta gaúcho que faturou o cinturão dos pesados
Muito antes de finalizar o norte-americano Cain Velásquez e unificar o cinturão dos pesados do Ultimate Fighting Championship (UFC) na madrugada do domingo do dia 14 deste mês, o gaúcho Fabricio Werdum já sabia que o título seria seu — havia premeditado a conquista para o amigo Mário Reis há 12 anos.
Nascido em Porto Alegre, Werdum, 37 anos e 1m93cm de altura, começou a praticar jiu-jitsu depois de perder uma luta para um garoto de 17 anos, ex-namorado da sua então namorada, em 1998.
A derrota foi determinante para que Fabricio entrasse para o mundo das lutas. Ele passou a ascender de faixa, deixando o menino da "ganguezinha da Bagé" para trás. No entanto, como relatam os amigos que ficaram em Porto Alegre, Werdum não perdeu o jeito brincalhão: marca registrada do "Vai, Cavalo".
QUANDO WERDUM ERA SÓ FABRÍCIO

Ao derrotar o norte-americano Cain Velásquez, na madrugada do último domingo, na Cidade do México, o porto-alegrense Fabricio Werdum, 37 anos, se tornou o campeão linear dos peso pesados do Ultimate Fighting Championship. Werdum, que completará mais um ano de vida em 30 de julho, já detinha o cinturão da modalidade, mas de maneira interina – em 2014, o campeão Velásquez acabou machucando o joelho e o neozelandês Mark Hunt foi o indicado para enfrentar o gaúcho. Faltava a Werdum justamente a chance de bater o detentor do desejado cinturão. E foi o que ocorreu aos 2min13seg do terceiro round naquela madrugada mexicana.
– Ninguém acreditava em mim daquela vez, ninguém achava que eu ia derrotar o Cain, mas hoje é o melhor momento da minha vida porque sou o melhor peso-pesado do mundo. Tenho dois cinturões agora, muita gente falou que o meu outro cinturão era de mentira, mas as pessoas não sabem o que se passa nos bastidores – declarou Werdum, ao final da luta, ainda com um corte no nariz como espólio de guerra.
Fabricio Werdum, o guri que saiu do bairro Petrópolis ganhou o topo do mundo. O UFC é transmitido para 150 países, em 21 idiomas, e alcança mais de 1 bilhão de domicílios mundo afora. E todos conhecem Werdum, o novo herói do Rio Grande do Sul.
O GARNIZÉ, O CAVALO E A PROMESSA
No começo, Werdum era apenas Fabricio. O Fabricio Cavalo, das peladas nas tardes de Porto Alegre, no campo de areião do Parcão ou na Praça Tamandaré, no bairro Petrópolis. O Cavalo que era o melhor amigo do Garnizé. Fabricio Werdum e Mário Reis, dois campeões mundiais de jiu-jitsu e que se tornaram irmãos de tatame. Pois bem antes de Werdum finalizar o norte-americano Cain Velásquez e se tornar campeão mundial dos peso pesados do UFC, ele já ansiava pelo título. E avisou Reis que ganharia. Doze anos antes da bater Cain.
Como o pai saiu cedo de casa, a mãe, Célia Silveira, criou sozinha os filhos Fabiana, (hoje com 41 anos e vivendo em Londres), Felipe (39) e Fabricio (37). Em meados dos anos 90, ela se mudou para a Espanha. Trabalhava na montadora Iveco e foi transferida da capital gaúcha para a capital espanhola. Em Porto Alegre, os irmãos Felipe e Fabricio Silveira Werdum pareciam viver uma vida de filme: sem os pais por perto, apenas sob o olhar não muito atento de uma empregada, e sendo donos dos próprios narizes.
– Éramos uns maloqueiros naquela época, já quase ao final dos anos 1990. Vivíamos para jogar bola e passávamos os dias na rua – conta Reis, de 37 anos.
A rua passou a ser o lar dos amigos de Werdum no bairro Petrópolis. A turma se reunia na Avenida Bagé, e era conhecida como a "Ganguezinha da Bagé". Fabricio e Felipe moravam em um barulhento apartamento na Avenida Mariante, ao lado do Viaduto Tiradentes. Quando a grana apertava, Fabricio fazia alguns bicos. Chegou a trabalhar de chapeiro em uma lanchonete na Avenida Protásio Alves. Com 1m93cm de altura e quase 100kg, Werdum era famoso pelos seus gols na peladas, ao melhor estilo Jardel (seu ídolo até então), igualmente conhecido pela pouca habilidade em campo – e também pelo bordão "Vai, cavalo", que soltava nas raras vezes em que driblava alguém no areião.
No final dos anos 1990, ele começou a deixar de lado as brigas de rua e passou a ter os primeiros contatos com o mundo das lutas. Se interessou pela capoeira, arte na qual o irmão mais velho começava a dar os primeiros passos, com aulas no Independente – um clube social localizado na Protásio Alves.
Nesse tempo também a TV aberta encantava a todos com The Ultimate Fighting Championship (UFC), uma espécie de vale-tudo, no qual o brasileiro Royce Gracie era o fenômeno das primeiras edições, com uma luta desconhecida para a maioria das pessoas: o jiu-jitsu.
A nova arte marcial passou a ganhar maior difusão em Porto Alegre, com duas academias estabelecidas – uma delas, a Winner-Behring, na Protásio, nas cercanias da Bagé. Aos 20 anos, Werdum então procurou a Winner, depois de ser finalizado nas areias de Capão da Canoa por um conhecido que praticava a arte há três anos (confira a história no capítulo "A batalha de Capão").
"O jiu-jitsu nos salvou. Éramos dois guris rebeldes, que estavam virando dois maloqueiros, com futuro incerto. O Werdum precisava da disciplina de uma arte marcial para se encontrar. E foi isso que o jiu-jitsu deu para ele", afirma Mário Reis, tetracampeão mundial dos pesos pena, e que nos tempos do bairro Petrópolis era o Garnizé."
Primeiro professor de jiu-jitsu de Werdum, Márcio Corleta, 39 anos, foi o responsável por entregar todas as faixas de graduação ao lutador. Lembra que Fabricio foi se tornando um atleta mais determinado, conforme amadurecia, mas sem perder o jeitão de guri.
– O Fabricio era o cara que no meio da luta olhava pra torcida e fazia uma careta. Apesar de ser muito focado, estava sempre inventando uma brincadeirinha.
Werdum se mostrou um fenômeno no tatame. Em pouco mais de um ano de jiu-jitsu, já havia conquistado o primeiro de seus três títulos mundiais. Na academia, mostrava uma evolução impressionante.
– Era do dia para a noite. Ele via um lutador mais graduado do que ele aplicando um golpe, analisava a movimentação, a repetia e, no dia seguinte, aplicava o golpe e finalizava alguém mais experiente do que ele. Era impressionante – atesta Igor Domingues, 43 anos, faixa preta 3º grau, proprietário da Escola de Jiu-Jitsu, no bairro Petrópolis, e quem, por um ano, ficou com o cachorro dos Werdum, o pitbull Cyborg, quando os guris passaram uma temporada mais longa em Madri.
Volta e meia a saudade de Dona Célia apertava. E Werdum embarcava para Madri. Foram seis anos assim, em uma espécie de ponte aérea Porto Alegre-Madri a cada 60 dias, com idas e vindas. Na Espanha, ele retomou alguns bicos e trabalhou como segurança. Mas se estabeleceu em uma academia no Estádio Vicente Calderón, do Atlético de Madrid, ensinando aos espanhóis o já famoso "brazilian jiu-jitsu".
Foi em uma tarde de 2003, na estrada que leva de Madri a Zaragoza, pilotando um Astra branco, usado e comprado com o dinheiro que havia ganho dando aulas para os gringos, que Werdum se virou para Mário Reis, que o visitava no país, e disse:
"Tu vai me ver no UFC e vou ser campeão."
Reis ouviu e, como de costume, largou um "duvido" ao amigo e não deu muita conversa a Werdum. Mário Reis foi dormir tarde na madrugada de domingo, do dia 14 de junho deste ano. De casa, em Porto Alegre, ele havia assistido até 1h44min à promessa do amigo sendo cumprida. Por volta das 16h, o telefone tocou, mas Reis não atendeu porque não escutou o toque do iPhone. Em seguida, recebeu uma mensagem de voz pelo WhatsApp. Era Werdum reclamando.
– Fui campeão e tu nem pra me mandar uma mensagem dando os parabéns – cobrava o campeão dos pesados.
Reis sorriu, mas não retornou. Não demorou para que Werdum telefonasse.
– Ele disse que precisava falar rápido, pois estava embarcando para Cancún. Lamentou que estava com uns galos na cabeça, pelos golpes do Cain. Lembrei da nossa conversa em Madri, 12 anos atrás. Werdum é um cara espetacular – conta Reis.
Da primeira disputa no Jungle Fight, com bolsa de R$ 4 mil (R$ 2 mil para participar mais R$ 2 mil por ter vencido a luta) aos US$ 50 mil (cerca de R$ 155 mil) recebidos como prêmio por ter derrotado Velásquez no UFC 188, Werdum aprendeu a lutar em pé, buscou conhecimento no muay thai, no thai boxe (quando conheceu o seu atual treinador, Rafael Cordeiro), no boxe e no wrestling. Entrou e saiu do UFC, disputou torneios no Pride e no Strikeforce (outras duas organizações de MMA), venceu, perdeu, casou com a estilista Karine Groff, se mudou para Los Angeles. Montou uma academia na Califórnia, viu as filhas Julia, sete anos, e Joana, um ano, nascerem e crescerem, voltou à organização UFC, bateu o neozelandês Mark Hunt, pelo título interino dos pesados, e conquistou definitivamente o mundo ao deixar Velásquez deitado no octógono.

"Werdum é o maior lutador gaúcho da história. E continua o mesmo de sempre: um cara solidário e que ajuda a todos", acrescenta Domingues.
Não há prazo para que o campeão volte ao octógono do UFC. Werdum foi tirado de qualquer card pelos próximos seis meses. A organização dará esse período para que ele se recupere da luta contra Velásquez e cumpra as exigências médicas, como realizar ressonância magnética no joelho direito, no polegar direito, e apresentar um raio X do nariz. Werdum segue sem data para colocar o cinturão em disputa, na cidade de Las Vegas. O adversário será definido entre o bielorrusso Andrei Arlovski e o croata naturalizado norte-americano Stipe Miocic. Caso o azar que costuma perseguir alguns campeões do UFC (como Jon Jones e o próprio Velásquez) atinja também Werdum, e o UFC entenda que ele ainda não esteja apto a voltar ao combate, a luta pelo cinturão será adiada e o gaúcho manterá o título de campeão dos pesados por mais tempo, mesmo sem colocá-lo em disputa.
A BATALHA DE CAPÃO
E se Werdum jamais tivesse sido finalizado por um guri, de 17 anos, no final de 1998, nas areias de Capão da Canoa? É o próprio campeão dos peso pesados do UFC quem conta que só ingressou no jiu-jitsu por causa do "Marquinhos". Werdum tinha 20 anos e namorava Luciana, que havia namorado Marquinhos alguns meses antes, por cerca de 90 dias. Marquinhos, Marcos Daniel Domato Wafchitz, hoje com 34 anos, e morando em Florianópolis, já lutava a arte há três anos. Werdum, na época, praticava capoeira.
– O Werdum conta uma história diferente, ele inverte a situação, diz que eu o chamei para a briga. Não foi assim – relata o administrador de empresas e dá aulas na Academia Atomic, na Praia do Rosa.
Segundo Marquinhos, após o namoro, ele seguiu frequentando a casa de Luciana porque era um dos melhores amigos do irmão dela, Cristiano.
– O Cristiano era meu amigão. Eu treinava jiu-jitsu seis horas por dias. Muitas vezes tendo o Cristiano como colega de tatame. Depois do treino, íamos para a casa dele. Eu chegava lá e estendia o quimono na varanda, para arejar. O Werdum me via como um playboy. Ele tinha aquela malandragem da rua, de jogar na Praça Tamandaré. Ele chegava para ver a Luciana, olhava o meu quimono, e começava a tirar onda, se deitava e ficava desafiando. Dizia: "E aí, jiu-jiteiro? Vamos fazer uma luta? Vamos fazer?". Eu sempre respondia que não, que não havia necessidade de fazer aquilo. Já lutava há três anos, e ele não – recorda Marquinhos.
O ano passou, Werdum e Luciana haviam engrenado o namoro, e eles voltaram a se encontrar naquele começo de verão, de 1998 para 1999, dessa vez, à esquerda do antigo Baronda – o lendário restaurante à beira-mar de Capão.
– Werdum e Luciana estavam juntos na praia quando nos vimos. Era um sábado, e o Werdum, de novo, disse: "É hoje então? Vamos ver, jiu-jiteiro?". Eu já estava cansado daquilo e resolvi responder: "Tá bom, vamos ver então. Mas não vale porrada, tá? Se não, vai ficar ruim para mim". Pô, eu era um magrinho de 64 quilos (e 1m75cm de altura). O Werdum já era um monstro, com mais de 1m90cm (ele tem 1m93cm) e quase 100 quilos (tinha 79 quilos na época). No fundo, ele já se interessava pelo jiu-jitsu, mas não tinha começado a praticar. Na capoeira, ele também tinha elementos de luta no chão. Werdum estava acostumado a isso – lembra o desafiado.
Duelo aceito, uma rodinha se formou ao redor dos lutadores. Não havia uma polpuda bolsa ao campeão. A premiação era a honra. Bater ou apanhar na frente da ex-namorada ou da atual namorada. Um duelo de vida ou morte para dois jovens adultos porto-alegrenses, em um improvisado octógono em campo neutro.
– Só lembro de ver aquele monstro correndo em minha direção, com um braço para cima, o outro para baixo, pronto para me levantar. Quando ele chegou mais perto, encaixei um triângulo voador, peguei de jeito. Ele ainda tentou me dar uns três bate-estacas, mas a luta já tinha acabado. A galera teve que separar – resume Marquinhos.
Lutadores apartados, bolinho desfeito, o vencedor jamais esqueceu as palavras de Werdum ao se erguer da areia:
"Segunda-feira eu começo esta merda."
E, como prometido em público, na segunda-feira Werdum pegou a freeway, voltou a Porto Alegre e se inscreveu na academia Winner-Behring, onde começou a praticar o jiu-jitsu.
– Acho que Werdum em algum momento começaria a lutar jiu-jitsu, era algo que já estava no horizonte dele. Mas fico feliz por ter sido uma ferramenta para que ele buscasse a arte. Afinal, um magrinho de 64kg o derrubou – diz Marquinhos.
O "magrinho de 64 quilos" desapareceu. Hoje, Marcos Daniel Domato Wafchitz pesa 88 quilos, é faixa preta 3° Dan (a graduação dentro da arte marcial). No ano seguinte à "Batalha de Capão", Marquinhos foi convidado a se mudar para Montevidéu. Passou quase dois anos ministrando aulas de jiu-jitsu para mariners norte-americanos, na embaixada dos Estados Unidos, enquanto um dedicado Werdum conquistava o Mundial dos pesados de jiu-jitsu, no Rio de Janeiro. Voltou ao Brasil em meados de 2001, onde passou a ensinar jiu-jitsu na Praia do Rosa. O namoro de Werdum com Luciana já havia acabado.
Em entrevista a Zero Hora, em novembro do ano passado, Fabricio Werdum contou ser grato a Marquinhos pelo incentivo um tanto torto a ingressar no jiu-jitsu. O campeão lamentou jamais ter conseguido outra luta com o algoz.
"Se o Werdum quiser uma revanche agora será a maior alegria. Fico feliz por ele ter chegado onde chegou. Foi pelo 'segunda-feira eu começo', que ele disse em Capão da Canoa. É o grande campeão de hoje por causa dessa força de vontade, persistência e foco", afirma Marquinhos.
"MACHÃO E MEDROSO"
"Que cara difícil de finalizar".
A primeira impressão que o hoje professor de jiu-jitsu Alexandre Fortis, 42 anos, teve sobre Werdum já anunciava a determinação e a competitividade do lutador, características que constataria no convívio dos 15 anos seguintes. Lembra de um rapaz magrinho, que, mesmo com nada de experiência no tatame, lhe deu trabalho no treino, e diz que Werdum nunca foi de aceitar perder – já fez Fortis lhe enfrentar por mais de 12 horas no videogame, insistindo que não pararia antes de vencer. Não por menos, acredita que Cigano será um dos primeiros adversários do campeão dos pesados, em uma revanche pelo nocaute em 2008.
Fortis destaca o jeito simples do amigo, afirmando que Werdum "é o mesmo cara", não mudou na medida em que a fama e o dinheiro chegavam. E entrega algumas das fraquezas de Fabricio. Além de citar o sonambulismo do amigo:
— Ninguém queria dividir o quarto com Werdum nas viagens.

Em um jantar, na região metropolitana de Madri, na Espanha, a dupla foi convidada a buscar um vinho em uma adega subterrânea, acompanhada apenas pelo cachorro da casa. Quando o animal se recusou a entrar na adega, e a vela que carregavam se apagou, o homem de 1m93cm de altura se agarrou em Fortis e começou a berrar.
"O que tem de machão, tem de medroso", diverte-se Fortis.
O professor conta que horas antes da luta contra Velásquez, Werdum mandou uma mensagem de áudio via Facebook. Sentiu ansiedade na voz do amigo, que não chegou a fazer as brincadeiras como de costume. Mais tarde, com Werdum já campeão, outras mensagens chegaram e o tom era outro: "Agora é só festa", ria o gaúcho.
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